quarta-feira, 11 de agosto de 2010


A FOME E A VONTADE DE COMER

Ao amigo Fuca


Eu queria escrever um bocado pra passar no pão, pra um pouco mais de recheio, pra encher boca vazia de desejo, pra matar a vontade que ele tem de me ter descarada, dizendo sempre a verdade. Não quero mais me esconder nas gavetas, em papéis onde preservo o que não gosto começo, meio e fim; nem me proteger em tampas de caneta, tampouco deixar a borracha me subtrair.

Há vezes em que quero ficar quieta e as coisas em mim ameaçam nunca mais parar, como agora; quero contar pra todo mundo que os meus segredos estão todos aqui. Nunca fui dessas mulheres de homens debruçados nos ombros procurando algum lugar ao sol, sempre fui descoberta, sempre fui toda uma luz só calor.

Outro dia Adriana me contou da exigência que ele faz às minhas palavras, à minha conversa que ele precisa respirar. Se eu falasse a qualquer pessoa seria incompreensível, mas ele entende a minha alma ainda que não entenda uma palavra sequer, ainda que não saiba o que eu quero dizer e até ache confuso esse jeito que eu tenho de ser tinta no papel, de me jogar na palavra como se fosse o próprio sentido.

Ele sabe desse fraco de me emocionar diante da chuva, de querer ouvir a música mais melancólica pra doer de verdade e ter espaço de sobra pra me sentir feliz completamente. Quase assim, ele confessa o choro sem vergonha diante da coisa mais insignificante; confessamos um ao outro porque não confiamos em alguém sem pecados e um lugar que não permite olharmos nos olhos.

Eu queria escrever uma coisa bonita, laço de fita enfeitando o cabelo das meninas, vaidosas todas elas, buscando um gracejo dos meninos; queria ser feito boca suja dizendo eu te amo, sem jeito, nem cerimônia; queria escrever porque tenho pouco tempo, porque não tenho nada seguro, porque não posso deixar de dizer antes de dormir.


Rosemeri Sirnes


sexta-feira, 23 de julho de 2010




VIVENDO O AMOR



Eles se amaram de qualquer maneira, à vera

Qualquer maneira de amor vale à pena
Qualquer maneira de amor vale amar

(Miltom Nascimento/Fernando Brant)



Posaram as mãos sobre a outra, o corpo sobre a cama, as chaves sobre a mesa do apartamento entregue na terça.

Eu digo que amo como um gesto que me impede a distância. Nunca disse que os meus abraços são todos eu te amo? Fique sabendo.

Ricky, você é tão bonito que tua beleza me empresta, e agora eu sei que esse olhar todo brilhante do amor diamante tem nome de gente.

Thiago, vejo a beleza no espelho dos teus olhos e reconheço um irmão na sorte grande que você tirou.

Portas abertas. As caixas começam a chegar, os móveis, os presentes, os detalhes da decoração, a geladeira, a máquina de lavar. O sonho ganhando corpo estende-se na cama dividido em dois.

Nas mãos a aliança, sem amarras, só a mais pura vontade. Quando o Ricky multiplica a existência das vogais nas palavras confessa todo o amor que sente e me faz feliz presenciar a fé dessa união.

Parece mentira que o conheci outro dia. Menino, eu tenho idade pra ser tua tia e você deixa a casa antes de mim!

Como as coisas gigantes ganham espaço em mim.

Você é bonito desde a alma, desde o que não conheço até o que me confessa.

Você nem acredita como é tamanha a felicidade quando alcanço mesmo daqui o teu sorriso, quando você me conta tuas coisas por não caber em si de tanta alegria e me chama pra fazer parte disso.

Portas fechadas. Sossega o corpo ansioso que há duas semanas espera o encontro todos os dias. Chegou a hora da partilha dos espelhos, da cama, do lençol, das contas. Chegou a hora de ser feliz do lado dentro e do lado de fora.


Rosemeri Sirnes


segunda-feira, 12 de julho de 2010


MINHA TURMA, MINHA GENTE

Gente é muito bom
Gente deve ser o bom
Tem de se cuidar
De se respeitar o bom
Está certo dizer que estrelas
Estão no olhar
De alguém que o amor te elegeu
Pra amar
(Gente - Caetano Veloso)


Não vou falar das flores murchas. Recebi um buquê de vivas cores, coloquei-as no jarro com água gelada para durar minha semana, florindo a ante-sala recebendo bem aqueles que vêm pela porta principal.

No meio de toda fagulha, feriu-me o tanto que eu pude suportar: falar a mesma altura, suprimir o choro na garganta e descontar mais tarde ao telefone sossegando em mim tanta fúria ácida. Eu consegui conter o tremor das mãos e aquela sinfonia de panelas dentro de mim; forte, embora todo o corpo respondesse covarde. Quantas coisas nos deparamos...de repente e enquanto se está vivo é possível acontecer.

Não sou nenhum Jesus Cristo. Sou carne e osso, humana, ariana. Enlouquecida sou muito mais.

Mas tá freando, sob controle, atravessando a rua pra ser feliz.

Já sinto saudades das pessoas, algumas que nunca mais verei, outras que eu vou levar pra mim em mim pra dias melhores.

Olha de enxergar, cruza os dedos nos meus, feito linha na agulha e eu acredito que é verdade, pois tudo o que é verdade olha nos olhos e transparece, reflete na íris.

Como esses anos longos vão nos levando, eu e Su somos irmãs e nem precisamos de documento e testemunhas. Ela garante que o sucesso são nossos gostos avessos pelos homens. Eu confio que temos uma pausa certeira, de caminhar e parar, de falar e calar.

Meus dentes não estão mais trincados, meus olhos não respondem mais aos conselhos de que é preciso chorar pra sarar.

Escutei Don McLean cantando American Pie, mas foi um Peixe Vivo que me trouxe coloridos olhos posando espontâneo sorriso.

Como pode o peixo vivo
Viver fora da água fria
Como pode o peixe vivo
Viver fora da água fria


Como poderei viver
Como poderei viver
Sem a tua, sem a tua
Sem a tua companhia
Sem a tua, sem a tua
Sem a tua companhia


Rosemeri Sirnes


sábado, 26 de junho de 2010



CARTA PARA QUEM ESTÁ LONGE

Foto: Vanessa Tavares


Escrevi quatro linhas, recebi dezesseis de volta. Gosto quando multiplicam minhas palavras, quando deixam de culpar o tempo, quando silenciam palavras a dedo no papel.

Então quer dizer que o sol acende a lareira e fica o dia quase todo te aquecendo? Deve ser pra te afastar o inverno - que por aqui se institui quando abaixo de 18 graus - te afastar o frio de dormir sozinho; o frio da ausência das crianças na frente da TV, falando alto, pedindo mais um tempo antes de sentarem à mesa; o frio de não ter o sabor da comida da esposa atravessando a rua indo ao seu encontro, de longe sabe a boca o que lhe espera. O frio de se encontrar em outro endereço, o frio de não encontrar mais os vizinhos (e olha que você nunca imaginou sentir esse gelo nos pés), o frio de ter que olhar o mapa toda vez que sai da casa que não é a sua, que das suas coisas só abriga a mala ao lado da cama.

Aqui anoitece às seis, esfria, o céu fecha os olhos, parece que dorme, então dizemos amém. Tenho meia nos pés, corpo coberto, protejo os lábios dos cortes do tempo, busco energia alternativa quando falta luz natural em cartas como a sua.

Sou como papel branco, anseio pela escrita em minha pele, pelas expressões, o tempo marcando passagem em minhas terras. As rugas no meu rosto são estradas que percorri sem sair de mim. Recebo tuas palavras querendo lançar as minhas, querendo ser peixe no mar, respirar do fundo pela vida que você me dá.

Duplico minhas linhas, alimento a sede que há muito em mim; você sem saber, sem querer, feito música nas horas de intervalo me deixa respirar.

Cada vez mais o passar dos dias te aproxima de dias ensolarados, o verão chegará com as malas, as gavetas cheias, os amores que ficaram do lado de cá.

Anjos pra você. Deus e sua sombra, duas bênçãos. Cada amanhecer, a luz nascendo atrás da nuvem, crescendo em você. Crianças sorrindo, correndo, crianças penteando o seu cabelo, te colocando pra dormir, brincando de pique, puxando a corda pro teu lado. O som da harpa tornando o silêncio um sossego, nunca solidão. A chuva caindo no solo e subindo num cheiro de vida, lembrando uma época em que suspenso no balanço não tocavas o chão; barulho na telha, derrama lágrima na janela, encontro seu rosto intocável. Borboletas, nuvens, coisas na altura da vista, coisas fugidias que a gente esquece de olhar. Que estejam na sua janela brotando num jarro de flor.


Rosemeri Sirnes

segunda-feira, 21 de junho de 2010

MAYRA ANDRADE



Meu espaço hoje é reservado à Mayra Andrade, cantora de Cabo Verde e de muitos outros lugares que passam por ela, por onde ela passa e por onde passeio quando escuto sua voz, sua música.

Depois de algum tempo vivendo uma vida sem sangue, essa minha escrita corre as veias novamente, num mar de águas calmas, vem trazida por Navega . Eu poderia ajoelhar e reverenciá-la por sua arte e todo o bem que faz a minha alma, sem temer a blasfêmia.

Fecho os olhos pra enxergar melhor o que há dentro mim. Ela me encontra os lugares das emoções que nunca senti, eu passeio em mim enquanto ela transita o mundo inteiro. Os álbuns Navega de 2006 e Stória, stória de 2009 revelam a beleza que é capaz um corpo, habitar uma alma devagar, de maneira despretensiosa e grandiosa.

Metade do que sinto eu não sei dizer, a outra metade eu digo assim meio sem saber. Nunca fui boa em explicar por que as luzes se acendem ou por que eu fecho os olhos quando canto.