domingo, 18 de outubro de 2009





Clara e seus penduricalhos. Clara e seus balangandães. Clara e seu sorriso franco. Claridade em mim, a tua voz.

Tanto se cantou, tantas músicas se puseram de pé saudando Clara Nunes diante de sua saída em 02 de abril de 1983, sua saída precoce aos 41 anos. Não há nada que eu diga em forma de poesia, muito já foi dito de maneira tão bonita que minhas palavras receiam ser menos.

Ela continua aí, perpetuada em sua obra. Não haverá versão de “Canto das três raças” que chegue a seus pés, não haverá nem ousadia àquele canto emocionado.

Descubro Clara, antes tarde do que nunca, o LP empoeirado no fundo da estante, descubro suas pérolas, suas flores no cabelo, descubro a beleza de cada canção escolhida a dedo, suas imagens em preto e branco, suas imagens em colorido, sua ousadia em levar para o palco seus orixás e sua vestimenta, saia rodada tonteando todo o público.

Sabiá, conduz- me a sua voz ao voo mais intenso, a emoção mais indescritível. Abre uma clareira, abre-alas, abre em mim o seu sorriso, a alegria enorme dos seus olhos.

Essa é a tal guerreira, filha de Ogum com Iansã.

Rosemeri Sirnes




sábado, 10 de outubro de 2009



ESCANDALOSA DOR



“Só eu sei a medida da dor que sinto, só eu saberei o limite, so-mente. A hora exata de dizer basta. Só eu sei a medida de dor que suporto, e ainda que não acredites, eu sei dizer não.”




Chorei à vácuo, um choro silencioso, escandalosa dor.

Dores se confundem, cada qual com seu argumento a favor. Tudo o que eu queria agora era dormir, a minha eternidade deitada em lençóis de seda azul. Tudo o que eu queria agora era ser feliz pra sempre, mas é luxuoso demais sonhar.

Não sei, realmente não sei dizer se esta é maior que as outras, não quero colocá-la em pé de igualdade, nem inferiorizá-la como se a dor do mundo importasse no meu apartamento de dois quartos.

Se as minhas veias estivessem secas e eu me visse ali pálida, talvez eu temesse a morte e desejasse ter dias como esses daqui, talvez seja coisa de consumismo querer aquilo que não se tem.

Chorei a dor acumulada, das vozes que não se calam, das vidas tristes que encontram abrigo em mim, dos princípios de felicidade que não alinham, dos sorrisos de quem se contenta com pouco, da dor de me ver em cada rosto solitário da cidade.

A boca está seca, a respiração ofegante, falta ar neste vazio, falta.

Chorei como se chora de felicidade e solucei como se não houvesse escapatória. Eu escrevia e não entendia as vias que se abriam pra água escorrer. Por ter onde desaguar é que eu descanso, por encontrar como dizer é que deito e sonho mais longe ainda.


Rosemeri Sirnes

sexta-feira, 2 de outubro de 2009







TUA HISTÓRIA EM MIM


Quero saber onde nasce o sol primeiro. De lá pra cá? Quero ver se lá o sol é brilhante, se a terra é morna e me aconchega tanto mais do que aqui. E da minha pele, de onde vem a tonalidade da pele e esse coração que bate no compasso do candomblé? Minha ascendência não é germânica, espanhola ou italiana, se isso é o que importa, talvez eu até tenha uma pitada, mas o meu solo é africano, e eu não conheço nada da minha raiz, sequer a origem do meu sobrenome.

Alguém sabe da minha mãe, além das guerras, massacres e fome? Alguém sabe se lá o solo é árido e os animais vivem a solta como em um zoológico? Alguém sabe se as etnias continuam em guerra? E as estatísticas de Aids e inanição? Alguém sabe dos meus filhos, a origem de seus sorrisos? Sabe-se lá, quem silencia seus choros?


“Conflitos entre tribos rivais no Quênia estão cada vez mais frequentes tendo como causa principal a seca. Pessoas disputam água e terras.

Aproximadamente quatro milhões de quenianos vítimas da seca são dependentes do Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas. Apesar disso, o PAM(Programa Alimentar Mundial) prepara-se para reduzir a ajuda devido a falta de verbas.”

“Na África mais precisamente na região oeste onde fica a Guiné-Bissau ainda é comum a prática de circuncisão feminina. Desde 2006 foi entregue um projeto de lei ao parlamento proibindo a prática da circuncisão feminina. Mas até hoje a prática é legal no país.

Cerca de quatro mil meninas são circuncisadas por ano, muitas delas não resistem e acabam morrendo após a mutilação.”


Trarei notícias boas de ti, trarei notícias da tua reestruturação, do encontro dos irmãos de diferentes tribos. Serei emissária das tuas boas venturas. Tenho fé nos teus dias.

África, teu continente corre em minhas veias. Nunca vou negar tua posse sobre meu corpo. Reconheço-me em cada traço do teu povo, enxergo-me na pele mais escura que expões. Sou filha da tua terra. O sangue da tua memória me reconstrói, e é por todo esse sangue que tento fazer tua luta valer a pena.



Rosemeri Sirnes