terça-feira, 17 de novembro de 2009
SEM ASSUNTO E PALAVRAS DE SOBRA
Sem assunto, mas sempre com algo na ponta língua, querendo soltar, querendo explodir, querendo ludibriar minha maneira. Cisma que enche a boca de saliva. Dedos que correm feito criança pelo papel. Quero compartilhar minhas coisas, coisas alheias, coisas que me passam a vista como que diante da tela grande, deslumbrada, feito estrela que orgulhosa-cadente realiza um desejo.
Tudo só pra dizer um bocado, só pra forrar a mesa e servir arroz com feijão. Só pela pretensão de ter, quem sabe, você sentindo comigo.
Quando achamos que "nunca vai acontecer comigo", a vida trapaceia. Histórias de mulheres que arrancaram seus próprios espinhos.
Rosemeri Sirnes
terça-feira, 3 de novembro de 2009
THIS IS IT
Pois bem, ontem eu assisti ao filme-documentário This is it, registro do ensaio do que seria a última turnê de Michael Jackson. Confesso que me enchi de expectativa, minha porção cineasta fez toda uma montagem e edição própria, e puf! Diante da tela eu fiquei ali buscando algo com o que me emocionar, algo que fizesse valer a pena ter ido assistir na tela grande ao invés de esperar chegar na locadora da esquina.
Logo de início, I wanna be starting somenthin’ me fez pular na cadeira, como quem se ajeita por algum incômodo, e dizer “adoro essa música”, a partir daí fiquei com olhos brilhando de expectativa naquela escuridão, e não vinha nada além de alguns efeitos admiráveis e a voz de MJ cantando um trecho de Human Nature à capela que me fez crer que nem sempre é playback; seu inegável talento de dançarino também me fez admirar o vigor daquele menino-homem de 50 anos, [e lamentar mais uma vez a perda] (mantenho, mesmo correndo o risco de parecer ridícula). This is it. Nos minutos finais não via a hora de terminar e confesso, disfarcei meus bocejos.
Percebi que nem todos se enganaram com aquele papo de apenas duas semanas nos cinemas, notei várias cadeiras desocupadas na sala, talvez tenham encarado isso como puro oportunismo, o que não deixa de ser. No início de outubro, eu inocente, garanti o meu ingresso achando que seria impossível comprá-lo no dia, ledo engano.
Isso não vale um post, mas vale uma troca contigo. Aproveito esse papo entre a gente pra estender meu poema, costurar cada frase com linha de qualidade, daquelas que não se encerra com os dentes. Termino a colcha amanhã, separo hoje nossos retalhos. E amanhã será sempre estendido, para que deixemos sempre para amanhã.
Ontem na casa do meu irmão, eu exibi a música Une valse cantada por Edith Piaf para alguns amigos, enquanto a música preenchia toda a sala, eu estendia a batuta do maestro, fechava os olhos e me sentia como se sobrevoasse as nuvens com conhecimento de causa, e tentava levá-los comigo, mas eles fincavam os pés no chão, não se permitiam a liberdade da novidade, aquilo lhes batia como guitarra desafinada e eu não sabia explicar, só sabia sentir e subir mais alto.
Eu tenho tanta coisa pra dizer que o que se encerra nunca tem fim e eu vivo me repetindo, indo da cama pro banheiro, do banheiro pra cozinha, da sala pra..., do quarto pro..., pra me soltar por aí feito pipa colorida que ninguém corta.
É isso, tradução literal. É o fim e faltam palavras. This is it.
Rosemeri Sirnes
sábado, 24 de outubro de 2009
Um ano meio surrealista
Escuto Léo Jaime e lembro-me do vulto da gente reunida lá em casa naqueles tempos, 89 talvez, páginas amarelas e vivas de uma história que começava a fazer sentido. Nem sabia ainda do traçado, e hoje desconfio quando dizem que esse é o meu caminho, ao mesmo tempo vejo que é uma porta sem saída, nem remuneração. Quem escreve pra encher barriga, definitivamente há de morrer de fome.
Tudo só pra dizer que faço um ano nessa arte sem fim de atirar palavras até acertar, ou estar em vias de. Estarei sempre começando para que não me cobrem perfeição, para que não questionem sobre o que quero dizer, para que não interrompam minhas metáforas, para que não seja assumida outra identidade.
Escrevo. Parece sempre repetitivo justificar o verbo, talvez por tudo o que já foi dito, talvez pela fraqueza exposta e pela fortaleza que se institui.
Quero me fazer entender, mas eu não quero me esforçar, quero dizer e quero que sintas o sabor, quero descer devagar pela garganta e não quero que desistas. Quero interromper a ideia do parágrafo e ainda ser compreendida e na próxima linha falar sobre as coisas cotidianas e não ter nada coerente.
Danço no meio da sala, a música alta obriga o corpo a seguir a batida. Não quero ser o vento, quero ser a folha que desgarra do galho e voa pra longe. Quero ser inesperada, quero mais um ano de vida, inspiração.
Não será digno de um ano, não será. A palavra que ponho na mesa, pra ser clara e acessível, por se esforçar em se fazer entender, se tornará cada vez mais confusa. Sigo no mesmo barco.
Chego à conclusão de que é surrealista querer fazer com que você toque cada palavra. Eu não consigo parar.
Rosemeri Sirnes
domingo, 18 de outubro de 2009
Clara e seus penduricalhos. Clara e seus balangandães. Clara e seu sorriso franco. Claridade em mim, a tua voz.
Tanto se cantou, tantas músicas se puseram de pé saudando Clara Nunes diante de sua saída em 02 de abril de 1983, sua saída precoce aos 41 anos. Não há nada que eu diga em forma de poesia, muito já foi dito de maneira tão bonita que minhas palavras receiam ser menos.
Ela continua aí, perpetuada em sua obra. Não haverá versão de “Canto das três raças” que chegue a seus pés, não haverá nem ousadia àquele canto emocionado.
Descubro Clara, antes tarde do que nunca, o LP empoeirado no fundo da estante, descubro suas pérolas, suas flores no cabelo, descubro a beleza de cada canção escolhida a dedo, suas imagens em preto e branco, suas imagens em colorido, sua ousadia em levar para o palco seus orixás e sua vestimenta, saia rodada tonteando todo o público.
Sabiá, conduz- me a sua voz ao voo mais intenso, a emoção mais indescritível. Abre uma clareira, abre-alas, abre em mim o seu sorriso, a alegria enorme dos seus olhos.
Essa é a tal guerreira, filha de Ogum com Iansã.
Rosemeri Sirnes
sábado, 10 de outubro de 2009
ESCANDALOSA DOR
“Só eu sei a medida da dor que sinto, só eu saberei o limite, so-mente. A hora exata de dizer basta. Só eu sei a medida de dor que suporto, e ainda que não acredites, eu sei dizer não.”
Chorei à vácuo, um choro silencioso, escandalosa dor.
Dores se confundem, cada qual com seu argumento a favor. Tudo o que eu queria agora era dormir, a minha eternidade deitada em lençóis de seda azul. Tudo o que eu queria agora era ser feliz pra sempre, mas é luxuoso demais sonhar.
Não sei, realmente não sei dizer se esta é maior que as outras, não quero colocá-la em pé de igualdade, nem inferiorizá-la como se a dor do mundo importasse no meu apartamento de dois quartos.
Se as minhas veias estivessem secas e eu me visse ali pálida, talvez eu temesse a morte e desejasse ter dias como esses daqui, talvez seja coisa de consumismo querer aquilo que não se tem.
Chorei a dor acumulada, das vozes que não se calam, das vidas tristes que encontram abrigo em mim, dos princípios de felicidade que não alinham, dos sorrisos de quem se contenta com pouco, da dor de me ver em cada rosto solitário da cidade.
A boca está seca, a respiração ofegante, falta ar neste vazio, falta.
Chorei como se chora de felicidade e solucei como se não houvesse escapatória. Eu escrevia e não entendia as vias que se abriam pra água escorrer. Por ter onde desaguar é que eu descanso, por encontrar como dizer é que deito e sonho mais longe ainda.
Rosemeri Sirnes
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
TUA HISTÓRIA EM MIM
Quero saber onde nasce o sol primeiro. De lá pra cá? Quero ver se lá o sol é brilhante, se a terra é morna e me aconchega tanto mais do que aqui. E da minha pele, de onde vem a tonalidade da pele e esse coração que bate no compasso do candomblé? Minha ascendência não é germânica, espanhola ou italiana, se isso é o que importa, talvez eu até tenha uma pitada, mas o meu solo é africano, e eu não conheço nada da minha raiz, sequer a origem do meu sobrenome.
Alguém sabe da minha mãe, além das guerras, massacres e fome? Alguém sabe se lá o solo é árido e os animais vivem a solta como em um zoológico? Alguém sabe se as etnias continuam em guerra? E as estatísticas de Aids e inanição? Alguém sabe dos meus filhos, a origem de seus sorrisos? Sabe-se lá, quem silencia seus choros?
“Conflitos entre tribos rivais no Quênia estão cada vez mais frequentes tendo como causa principal a seca. Pessoas disputam água e terras.
Aproximadamente quatro milhões de quenianos vítimas da seca são dependentes do Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas. Apesar disso, o PAM(Programa Alimentar Mundial) prepara-se para reduzir a ajuda devido a falta de verbas.”
“Na África mais precisamente na região oeste onde fica a Guiné-Bissau ainda é comum a prática de circuncisão feminina. Desde 2006 foi entregue um projeto de lei ao parlamento proibindo a prática da circuncisão feminina. Mas até hoje a prática é legal no país.
Cerca de quatro mil meninas são circuncisadas por ano, muitas delas não resistem e acabam morrendo após a mutilação.”
Trarei notícias boas de ti, trarei notícias da tua reestruturação, do encontro dos irmãos de diferentes tribos. Serei emissária das tuas boas venturas. Tenho fé nos teus dias.
África, teu continente corre em minhas veias. Nunca vou negar tua posse sobre meu corpo. Reconheço-me em cada traço do teu povo, enxergo-me na pele mais escura que expões. Sou filha da tua terra. O sangue da tua memória me reconstrói, e é por todo esse sangue que tento fazer tua luta valer a pena.
Rosemeri Sirnes
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
RESPIRE A MÚSICA, SÓ ISSO
Será que alguém vai entender quando eu escrever sobre não esquecer de respirar a música? Quando eu fechar os olhos e chorar, será que vão pensar que é de tristeza? Ou então, se eu gritar e movimentar os braços como única libertação, será que não levarão em conta a minha sanidade? Se eu disser que amo mais uma vez, ele vai acreditar que é uma outra forma? Quem vai levar em consideração ou perdoar as minhas crises existenciais? Quem vai me pegar de jeito e dizer toda a verdade? Será que ainda demora? Será que vem devagar? E o mar, há de respeitar quando eu fincar os pés na areia e não me deixar levar? E o sol, há de livrar-me de teus raios e ser apenas benefício à minha pele? E tu, como vais? Quando vens? Malas prontas, todos os pertences, inteiro?
Será que vão ter como certa a minha permanência? Será que permitem que eu me estabeleça e escreva? Será que ele assina e lavra e acredita e leva a sério e envelhece e agradece estar ao meu lado? Será que vadio, mentiroso? Será que sem traumas, nem freios? Será que entende meu silêncio e não interrompe?
Não minta, não minta! Acima de todas as coisas importantes - destaco para que leias, não ignore - A tua verdade é o teu valor. Não me faça acreditar que vales nada.
Será que a minha vida encontra a sua, sem endereço e sem vontade? Será que o beija-flor anuncia novo amor? Será que a esperança traz bom prenúncio? Será que o pássaro passa da cozinha? Será que ele se contenta com as migalhas? E o dialeto que eu ouço, será que faz sentido, será que encontra aki razón?
Respire a música, para que ela te encontre, qualquer música para que a gente se encontre, uma única música para que as mãos se toquem e sigamos em rodopio pelo salão e eu possa te beijar com a palavra e eu possa entender a tua mão sobre minha coxa. Dance comigo para que eu diga eu te amo, para que meu corpo declame sua beleza. Dance comigo e saberás me guiar como exímio dançarino, ainda que aprendiz, ainda que nunca antes.
Nenhuma pergunta, só o teu corpo e o meu.
Respire o meu prazer, me engole inteira de vontade.
Rosemeri Sirnes
