
HUMANA E EXATA
Foto: Gustavo Joel Braga
É predestinação, é talento, é coisa qualquer que promove o drible, pernas tortas que possibilitam, mãos que desenham letras redondas em coleção de substantivos e adjetivos cujo resultado fim merece elogio.
Ela e seu texto enxuto, ela e suas palavras me fazem pesquisar no dicionário. Ela instiga minha sede por esse conhecimento suspenso, ela me faz querer alcançar bolhas intituladas. Em sua biblioteca estão enfileirados de Sócrates a Chico Buarque, e eu me interrogo com certo ar intelecutal para disfarçar minha completa ignorância, como ela foi capaz de ler tanto em tão pouco tempo de vida, ela responde a pergunta que fica presa na garganta, ela responde por vaidade, que semanalmente lê cerca de três livros, e solta a questão que me ficou presa só para engrandecer seu ego, eu culpo o tempo, a pressa, só para não evidenciar o desinteresse. Mal sabe ela que dos jornais só leio questões relacionadas à diversão e lazer, tanto que suspeito, qualquer dia desses a guerra vai ser estabelecida e só vai me alertar o estourar das bombas.
Eu a invejo, confesso, o manejo com as letras e essa publicação que corre feito sangue nas veias, essa inspiração mesmo diante da falta de assunto. Ela discorre sobre todas as coisas, tudo o que lhe passa aos olhos é motivo, seja através da janela do carro ou no detalhe adiante, do canto estreito do rodapé. Ela me ganha em qualquer discussão, no embate suas teorias filosóficas contra minhas certezas sem argumento.
Eu a amo, e em algum momento ela se confude comigo, talvez por herança, mas a verdade é que ela é humana e eu exata. Seu defeito é não ter raciocínio lógico, o meu é não ter coesão, nem coerência.
No fim é tudo uma questão de organização, mudam apenas as direções.