sábado, 6 de dezembro de 2008


ECOS DE ADEUS

Eu sou tudo e não sou coisa alguma, me desfaço leite em pó na água.

Eu pretendo. A faculdade está trancada, meu filho já nasceu e o pai foi embora.

Eu sou feliz. A lembrança de você carimbada, enquanto aviões sobrevoam exibindo faixas de “volta” que só a minha miopia enxerga . O telefone há tempos não toca e choro com a boca aberta, encolhida na cama, como se tivesse sido atacada por uma cólica das grandes.

Eu planejo. Os papéis estão todos na pasta, esperando uma ordem de prioridades. Certas providências eu deixei pra trás, certas coisas eu desisti mesmo, e ponho a culpa no tempo.

Eu vou ler. Compro livros, aceito empréstimos, interrompo Machado e não folheio a última página, não passo do prefácio.

Eu estabeleço metas. Um futuro, todo prédio em construção. Nada sai da planta. Quero o dinheiro de volta, vou me furtar.

Talvez seja bem esse o momento de voltar, de vestir os sapatos, arrumar as malas e engolir meu orgulho e o vinho numa tacada só. Há quem diga que nada é por acaso; reforço, a nossa briga foi providencial; talvez eu precisasse mesmo ouvir tuas ofensas, esse foi meu ponto de partida, meu impulso, o empurrão.

As dores que carrego completas de veracidade, me atacam em latejantes, mas hoje, só hoje eu consegui ser racional.

Pai, depois de cinco anos de tempo efetivo e uma década corrida em mim, venho lhe pedir perdão. Você sabe bem que me comunico melhor por escrito. Quando estiveres nesse ponto da leitura, apontarei na esquina com a mala cheia de saudade e já diante de ti experimentará o abraço na tua medida, nem apertado, nem frouxo e toda dor dissipará. Fará dia aqui e no Japão.



Rosemeri Campos



2 comentários:

Dauri Batisti disse...

Lindo texto. Este tom testemunhal dá uma intimidade extraordinária à crônica-carta.
Beijo.

Rodrigo Fernandes disse...

Uau!rs...