segunda-feira, 10 de novembro de 2008


DE BARRIGA

Sinto fome por dois e uma ansiedade que me morde o calcanhar. Amanhã saberei o sexo e o coração retumbante baterá por nós.
Ultimamente choro por qualquer motivo, se a maçã está magoada, se o ovo escapuliu e espatifou-se no chão, se alguém me diz não; acho que grávida tem dessas coisas...se bem que desde que assumi esse estado, os carinhos são exacerbados, pessoas estranhas falam com a minha barriga e estimam minha gravidez como se fossem da família; só ouço a palavra “não” quando meu marido diz: "não, pode deixar comigo. Hoje eu cozinho". Tenho que confessar, me aproveito da situação.
Meu marido encarou a minha barriga de fato, ele está grávido comigo, me acompanha nas consultas à minha obstreta, se interessa, quer saber e se preocupa mais do que eu com as coisas que como.
Minha barriga assim como meus pesinhos a mais começam a desfilar.
Eu que até então acreditava que só era possível dormir de bruços, constatei que a situação faz a posição, e hoje dou razão à minha avó quando dizia que tudo em mim é psicológico.
Levanto a noite inteira mais do que de costume, para fazer xixi, gostaria muito de saber o que muda no nosso organismo para estimular essa profusão de água.
Tenho me acostumado a tomar leite, não tomava desde que mamãe me deu o direito de escolha. Agora meu filho é quem manda em mim. Quero muito alimentar a cria, se Deus permitir, no mínimo um ano.
Preciso controlar as finanças, tudo o que vejo quero comprar. Miguel diz que os enfeites, ursinhos e afins que comprei, são mais para impressionar as visitas do que o bebê, pensando bem....acho que ele tem razão.
Mamãe liga quase todo dia para saber como estou, ela sabe que tenho quedas de pressão quando sinto fortes cólicas. Os enjôos foram embora, graças a Deus! Papai disfarça, acho que ele tem vergonha de demonstrar o tamanho da felicidade que sente pelo título de avô.
Tenho preocupações antecipadas, ainda não decidi quem será a madrinha; meu irmão já tem posto garantido, mas as minhas amigas são primeiro lugar na lista de preferência, todas ocupam a mesma posição, não sei mesmo como optar; precisarei do voto de Minerva do maridão.
No trabalho, virei xodó, quase me pegam no colo de tanto cuidado e eu adoro tanto mimo. Quando o bebê mexe, todo mundo quer tocar a barriga, querem esperar até o próximo movimento e ele se recolhe como se quisesse debochar e só mexe quando as mãos se afastam. Ele brinca desde a barriga.
Não vejo a hora dele nascer e mostrar qual dos gens é o mais forte, nós aqui em casa, ficamos montando o quebra-cabeça, querendo que ele tenha os olhos da mãe e os cabelos do pai.
Preciso providenciar algumas batas, vestidos e calças largas, as roupas já estão ficando repetitivas e meu corpo começa a tomar novos tamanhos. Mamãe disse que engordou 20 quilos quando estava grávida de mim e o médico dizia que era normal; ela nunca mais voltou a ser a mesma.
Tomo alguns cuidados, tento controlar minhas fomes absurdas, meus excessos; cuido da pele, quase tomo banho de óleo de amêndoas. Outras vaidades tive que abandonar, não pinto mais os cabelos, não os aliso mais, vez em quando, não agüento ver minhas raízes no espelho, mas todo esse cuidado é em prol da coisa mais importante da minha vida. Eu renuncio a tudo como Cristo, como mãe.
A parentada diz que vai me ajudar na primeira semana, me ensinarão os cuidados básicos. Estou bem insegura; se bem, que mamãe diz que no tempo dela tudo era mais difícil e que hoje em dia pode-se até molhar o umbigo; tenho receio com a moleira, mas isso é coisa pra depois. A comadre disse que tudo é questão de jeito, e mãe que é mãe tira de letra. Minha maẽ é sensacional; minha cabeça nunca bateu na banheira e até hoje ela continua me apoiando. Se eu conseguir ser metade do que ela foi me dou por satisfeita.
O sono me bate quando encosto a cabeça, vou deitar. Meu bebê até há pouco soluçava, mas acho que caiu no sono, estou indo pra cama também.

Rosemeri Sirnes


Ilustração: Suppa

3 comentários:

Rodrigo Fernandes disse...

Lindo, Lindo! Com certeza esse filho foi escrito com muito amor.

Muito bom Rose!

Continue assim! É uma ordem!

Beijões.

Natasha disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Natasha disse...

Depois de ler mais um de seus fragmentos, me veio à mente o trecho de uma música do Gonzaguinha que eu amo de paixão e que também traduz muito vossa msg:"...nove luas nove meses
tantas transformações
muda a pele tudo muda
tudo vale para ter o fruto
e de repente rebento
abrir a porta e dar à luz
o choro, a chama da nova vida
reluz, atrai, seduz...". Espero que vc permaneça nesse "estado interessante" - como ele tb diz nesta canção- por tempo indeterminado.Parabéns por mais um fruto.

Bjs e muita luz!