quinta-feira, 6 de novembro de 2008




Entre as ruas do Flamengo e a banca de jornal

Eu o vi de costas pela primeira vez e o li antes de qualquer letra. Ele estava na banca de jornal, procurando por assuntos. Me pus a seu lado para dar oportunidade à conversa. Tive a vontade repentina de ser sincera, mas sei que em tempos de desconfiança, era mais fácil assustá-lo. O olhei como quem pede licença e ele sorriu com gentileza. Quis dizer a ele que queria um desses em casa; quis dar uma cantada barata, porque eu sabia que no silêncio eu seria mais uma passante e ele merecia minhas honrarias. Quis tirar sua foto; só a minha retina não bastava, ele merecia outros olhares. Ele merecia os elogios esfuziantes de Roberta. Tenho certeza que ela diria que finalmente refinei meu gosto.
O homem merecia um poema. Sei que ele deve ter, como todos nós, seus muitos defeitos e pecados para pagar até o fim; mas seus olhos verdes mereciam uma jóia, seu corpo merecia o meu enlaço, aquela cicatriz quase imperceptível no canto do olho merecia a minha atenção, e eu estava lá abancada na primeira fila da sala de cinema, já com dor no pescoço e sortuda.
Era o típico garoto Zona Sul fora de alcance. Reparei a camiseta amarrotada de golas esgaçadas, o seu desleixo elegante, a calça de marca surrada que lhe atribuía um charme a mais.
Ele passa sem perceber que a rua é a sua passarela.
Esse homem, por quem não sou apaixonada, passeia nas ruas do Flamengo indo a qualquer lugar, menos para minha casa. Adoraria saber seu paradeiro, seus caminhos, ruas, os lugares que me levam a ele; não desejo um encontro, quero apreciá-lo à distância, não tão longe que me impeça de sentir o cheiro de perfume importado. Esse homem dissasociado do meu mundo, esse homem que eu julgo inacessível, chamou meus olhos em sua direção; caminhamos juntos até o meu destino, a partir de então outros olhos o seguiram.
Esse homem da última vez, esteve de passagem em mim.O homem de hoje de manhã, acordou cedo a minha percepção; lembrou-me de olhar para descobrir, observar com calma, olhar primeiro as costas, o avesso, o outro lado, só então caminhar mais perto e dizer coisas tolas sem risco.
O homem da rua, sem nome, é o meu instinto aguçado, é a minha espera pelo sabor apurado, minha espera para não queimar a língua.
Nenhum Roberto, Marcelo ou Fernando, ele é o rapaz que eu vi na banca de costas e tudo o que vem depois dele é superflúo.

Rosemeri Sirnes



Foto: Inês Sacadura

2 comentários:

Rodrigo Fernandes disse...

Grande prazer e ao mesmo tempo uma grande honra comentar palavras tão sutis, tão doces e relevantes (precisamos de mais Roses por aqui...). Sei que dessa gaveta vai sair muita coisa boa, sempre sai.(Já a devia ter aberto a mais tempo...)

Adorei a crônica, perfeita, essencial.

Beijos!!!

Natasha disse...

Rose, minha flor! Sinto cada vez uma invejinha (boa) de ocê,sabia?! Não só pelo teu talento e sensibilidade, mas pela capacidade que vc tem de escrever sem amarras mesmo em face do/de um "desconhecido".
Luz e muita inspiração p/ ti.