segunda-feira, 3 de novembro de 2008


DOMINGO NA BIBLIOTECA

Sorrio querendo esconder os dentes. Os reprimo sozinha na mesa da biblioteca enquanto o silêncio mordisca minha orelha.

Leio livros como quem se apaixona, como quem encontra a melhor maneira de não fazer doer, como quem almeja ser uma mulher mansa, como quem busca uma fórmula, uma resposta para várias interrogações. Leio e sinto notas musicais tocarem meu rosto, a sedução das palavras soprando versos... estou mesmo apaixonada. Pouso os olhos no homem da mesa em frente, um olhar satisfeito, um olhar de gozo. Ele percebe que penetro em seus olhos as palavras que meus olhos tocam e que de passagem penetra meu corpo.

No instante seguinte penso que poderia conversar contigo por telepatia nessas horas de sala fechada e silêncio absoluto. Nessa tarde de domingo, certamente, se não estivesse aqui, estaria dormindo. Nenhuma idéia seria fecunda.

Ao contrário disso, tenho tuas palavras, teus acenos, uma parecença que me faz acreditar que seríamos amigos ou um amor escondido, um amor não-correspondido, um amor disfarçado como o que tenho por Fabrício.

Leio seus livros sorrindo e querendo disfarçar, vejo alguns olhares de esquina em minha direção e finjo um bocejo, estou sozinha e temo a suspeita de desvario; leio como se passasse por entre as flores no dia de Finados com o orgulho de não precisar velar nenhum morto.

Vejo tantos homens a minha volta e me pergunto “por que há tantos homens na biblioteca num domingo?”, sérios homens, numa concentração que somente o salto da mulher desvia. Percebo homens com seus "notebooks", cabeças enterradas nos livros; os leio sem cerimônia, sua solidão, a paixão pela Filosofia, a monografia de fim de curso, a resenha que será entregue na segunda-feira.

Distraio, mas leio palavras inertes, leio palavras de pernas e braços, leio a palavra que a gente constrói a cada passo, a cada movimento involuntário.

As palavras que saltam aos olhos dizem que o poema sou eu. A mulher que reclama sou eu, que pede menos sinceridade, que oferece estadia sem se preocupar com o fim da temporada. Sou a mulher que não reclama uma vida inteira, sou a mulher que você narra sem saber; metade dessas, sou eu.



Rosemeri Sirnes

2 comentários:

Esther disse...

Oi Rosi,

gostei do seu blog e da forma como escreve,
as palavras parecem vir de uma forma fácil e tranqüila

continue escrevendo e libertando as palavras dentro de vc...

bj
~.

Natasha disse...

Nossa mãe! Será mesmo que "o poeta é um fingidor?". No seu caso, posso afirmar que só de vez em quando,né? Pena que meus domingos na biblioteca não sejam 100% inspiração e somente preocupação com uma bendita monografia..hehehehe.
Abraço,flor!