domingo, 11 de abril de 2010



O QUE SOU E O QUE NÃO SOU

Foto: Inês


Eu sou nada. Nenhum título me antecede, nenhum sobrenome me agrega valor, sou nada além de carne, osso e pele marrom; uma mulher sem atributos, que fica na fila, que não tem nome na lista. Não tenho minicurrículo, não sou resumo de coisa alguma.

Sou a história pela metade, o livro inacabado que interrompes por cansaço, sou um pedaço desse povo suburbano. Sou o que fica atrás da cortina, e não sobre os refletores. Sou absoluta e próspera diante de seus olhos borbulhantes, esses azuis de me fazer beleza. Tu enxergas em mim talentos que nunca desenvolvi, dizendo que sirvo pra isso e aquilo, tu és meu feitor.

Eu sou a estrela cadente que não recebe pedidos, o alimento que da boca escapole, não mereço desculpas; tenho perdões de Santa, de mãe, de mulher traída.

Filha de dona Maria e de seu Adão. Comi o suficiente para levantar-me forte. Não tenho herança, nem pai de amigo, sequer parente distante, e quando falam de biografia eu nunca sei o que dizer.

Não sou da prosa, nem do verso, há quem repudie meus poemas, há quem não entenda, há quem não os lê pela própria história.

Eu sou nada. Eu mesma me reverencio: recusada, proibida, imprópria, sem sentido. Eu sou o meu louvor, eu sou a minha derrota.

Sou uma simples mortal, tu é que me submetes à tua lente de aumento e insistes para que eu saia na foto.

Não sou autora de clássicos, épicos, nem auto-ajuda. Não sou licenciada, não sou indicada, não sou incentivada; não sei se sou mais do que não sou, e tenho impressão de que nada me comporta.

Sou a sombra do que voa e ninguém se dá conta.


Rosemeri Campos

3 comentários:

Levato disse...

Ficou lindo. Forte. Intenso.
Magnífico em toda sua plenitude.

Cínthya Verri disse...

Que liberdade, né?
beijo

Fragmentos Culturais disse...

Lindo! Como dizes que não és de prosa nem de verso?! És de poesia que soltas por entre os dedos!

Queres maior herança que toda essa sensibilidade?!

Um beijo,