quarta-feira, 14 de abril de 2010




DESCULPAS DAS DORES QUE A GENTE CAUSA E NÃO SENTE

Foto: Karina Bertoncini


Sempre acho que devo pedir desculpas. Peço desculpas sempre, talvez por querer me adiantar a alguma coisa que possa doer.

A gente faz doer mesmo sem saber, mesmo sem querer. Lembro uma vez em que estava conversando com o meu irmão e ele contou que se encontrava com duas mulheres, mas não queria compromisso com nenhuma delas; eu me levantei totalmente contrariada e ele se defendia dizendo que elas sabiam disso desde o início, eu rebatia dizendo que no fundo, ainda que nós (mulheres) aceitemos certas posições em que nos colocam, a gente quer sempre ocupar um posto maior; e quando a pessoa fica em nossa vida por um período considerável, por vezes achamos que tudo é uma questão de tempo.

Embora ele tenha dito a verdade, uma hora isso iria doer. Ele fez sem querer, isentou-se de qualquer culpa; e deve ter chegado o momento em que levantou o argumento de que foi sincero desde o início.

A gente faz doer sem saber, como acontece quando batemos a porta do carro e prendemos o dedo de alguém, ficamos ali pedindo desculpas, porque já não há muito o que fazer, a não ser providenciar gelo; mas da dor, só sabe quem sente.

Tomamos o analgésico. Está descrito na bula todas as indicações e na posologia recomenda 1 comprimido a cada 12 horas, não sendo suficiente elevamos a dose e ainda assim temos dúvida sobre a eficácia da droga, enfim chegamos a conclusão de que só sabe a dor quem sente. Não adianta explicar ao médico: a dor é fina, a dor é latente, a dor é frontal. A dor, desculpa doutor, você precisa tocar, você precisa provar.

Desculpe-me por ter derramado o seu copo quando aquele valia o teu último gole de sede.

Desculpe-me por ter minado as tuas forças quando decidi ir embora. Desculpa eu ter sido ridícula, dizendo que isso era para o seu bem, quando a sua ferida ainda ardia.

Desculpe-me por eu ter dito sem pensar duas vezes, sem dar conta do quanto doía minhas palavras afiadas.

Desculpa o meu egoísmo. Por deixá-la, casa, filhos e vazio.

Desculpa a covardia de quem sai para comprar cigarros e não volta.

A gente faz doer mesmo sem saber, e como ninguém sai da vida ileso, experimentamos do mesmo veneno.

Ofereci minhas palavras e elas não lhe desceram pela garganta. Faz diferença eu dizer que não foi a minha intenção? Faz diferença eu dizer que esse silêncio é bem pior?


Rosemeri Sirnes

2 comentários:

Fragmentos Culturais disse...

... não, não faz!
No momento da dor, ela é partida em fatias desiguais, porque cada um é um mundo e a dor é sentida na exacta proporção desse mundo!

Um bom exercício!
Beijo

Jacinta Dantas disse...

Olá,
estou aqui, conhecendo seu espaço e me encontro nesse texto. E, parafraseando o grande poeta, Dor? sente quem a tem. E dor tem que doer até parar de doer. E ainda tem dor que de tanto doer, a gente pára de sentir mas a dor continua ali, no "oco" que ela causou.
Eita dor. De um jeito ou de outro, todo mundo tem. Ainda bem que tem vários jeitos de enfrentar essa companhia desagradável. Escrevendo sobre.
Grande abraço