domingo, 18 de abril de 2010


PAPO ENTRE AMIGAS

Amiga, recebi uma mensagem do dito após três semanas, ele deve ter lembrado que o número que tinha anotado não era para jogar no bicho.

Preciso ser justa. Ele merece a minha absolvição só por ter guardado aquele pedacinho de papel sem sufocá-lo no bolso da calça, nem estraçalhá-lo na máquina de lavar; atendeu bem ao pedido “só não vai perder hein!”. Guardei o número dele também, mas desde que risquei o primeiro algarismo sabia que não ligaria, ou pelo menos, não antes dele.

Tenho que confessar, eu esperava que ele perdesse alguns minutos em ligação comigo; ao invés disso, mandou uma mensagem começando com “oi moça” e terminando com “bjs”. Não pertencemos à mesma operadora, isso quer dizer que ele não usou sobras de bônus, o que pode ser bom sinal. Aliás, ele deve ter esquecido o meu nome, nas duas mensagens enviadas seguidamente, ele me chama de moça, talvez na esperança de que eu assinasse a resposta e ele registrasse na agenda.

Ponto a favor: ele respeita a língua portuguesa, escreveu “tu virás”, bonitinho né? Nem eu que sou tão cuidadosa, usaria o verbo assim tão bem aplicado, e antes que você pense o contrário, ele é carioca mesmo.

Ponto contra: com a minha negativa ao seu convite de happy hour na sexta, ele nem sugeriu outro dia, simplesmente disse “ok, quando puder me avisa”, como se o final de semana se resumisse à sexta. Posso enumerar várias possibilidades: ele esperava que eu desse a segunda mão, já que ele me fez o convite e eu recusei, ou seja, esperava que eu desse a ideia de sábado ou domingo; ele só tem a sexta para usar como desculpa para o chopinho entre amigos, enquanto a namorada o espera à noite; ou ele é distraído; ou ele estava sem opção hoje e lembrou que eu existo.

Na mensagem, ele demonstrava bastante empolgação, perceptível pela quantidade de eses empregados “rssss” “bjsss” e um “tudo bem” seguidos de três exclamações; ou então fez uso proposital para que eu tivesse essa impressão, se bem que sendo homem, não acredito que ele tenha feito as coisas calculadas tão milimetricamente, mas também não dá pra confiar. Ele me deixou três pontos de exclamação e eu devolvi um, pra não dar tanta bandeira.

Amiga, é o código Morse. Tudo tem valor, pontos, vírgulas, letras em caixa alta, tudo quer dizer alguma coisa e quem lê entende o que quer, ainda que não seja a verdade.


Rosemeri Sirnes



Um comentário:

Fragmentos Culturais disse...

... é isso mesmo! O último parágrafo encerra toda uma verdade! A subjectividade de quem lê... que ultrapassa a de quem escreve!

Boas leituras... neste dia! Uma flor por um livro?
:)