
“Eu gostaria de ser assim firme, homogênea, uniforme, mas sou derretida, malemolente, líquida, o que você toca é a parte de mim que mente.”
Arrasto seu corpo cuidadosamente para que nenhum imprevisto pule de lá, vasculho cadernos, papéis soltos, frases que não terminei, quis ir até o fundo da gaveta; tudo isso, sem permitir brechas de luz, tateando como leitura em braile; de repente meus dedos vieram parar aqui.

É predestinação, é talento, é coisa qualquer que promove o drible, pernas tortas que possibilitam, mãos que desenham letras redondas em coleção de substantivos e adjetivos cujo resultado fim merece elogio.
Ela e seu texto enxuto, ela e suas palavras me fazem pesquisar no dicionário. Ela instiga minha sede por esse conhecimento suspenso, ela me faz querer alcançar bolhas intituladas. Em sua biblioteca estão enfileirados de Sócrates a Chico Buarque, e eu me interrogo com certo ar intelecutal para disfarçar minha completa ignorância, como ela foi capaz de ler tanto em tão pouco tempo de vida, ela responde a pergunta que fica presa na garganta, ela responde por vaidade, que semanalmente lê cerca de três livros, e solta a questão que me ficou presa só para engrandecer seu ego, eu culpo o tempo, a pressa, só para não evidenciar o desinteresse. Mal sabe ela que dos jornais só leio questões relacionadas à diversão e lazer, tanto que suspeito, qualquer dia desses a guerra vai ser estabelecida e só vai me alertar o estourar das bombas.
Eu a invejo, confesso, o manejo com as letras e essa publicação que corre feito sangue nas veias, essa inspiração mesmo diante da falta de assunto. Ela discorre sobre todas as coisas, tudo o que lhe passa aos olhos é motivo, seja através da janela do carro ou no detalhe adiante, do canto estreito do rodapé. Ela me ganha em qualquer discussão, no embate suas teorias filosóficas contra minhas certezas sem argumento.
Eu a amo, e em algum momento ela se confude comigo, talvez por herança, mas a verdade é que ela é humana e eu exata. Seu defeito é não ter raciocínio lógico, o meu é não ter coesão, nem coerência.
No fim é tudo uma questão de organização, mudam apenas as direções.

A ÚLTIMA IMPRESSÃO DO TEU CORPO
Oh meu companheiro, que saudade tenho de ti, daquelas conversas de largas pernas, das mãos dadas, das nossas intenções e de tudo que ficou subentendido. Tentei saber notícias suas por algum tempo, mandei algumas mensagens que retornaram a minha caixa postal, nem lembro bem, se por numeração incompleta ou mudança.
Lembro ainda de uma frase ardida de fim de papo em que dissestes, tenho certeza, com total desconcerto, que o melhor para nós dois era a separação.
Você nunca se acostumaria como eu, aos desenlaços, nunca a aliança esteve no dedo, nem a assinatura no papel, nossa condição nunca foi estabelecida por meio; a certeza sempre veio de nós, assim como a decisão cada um para o seu lado, que desceu amarga pela garganta, até que eu pudesse digerir.
Tenho saudade dos pés sobre a mesa de centro, as pernas no meio caminho e a mania de me provocar na frente da tv na hora do meu programa favorito.
Tenho saudade do fim de semana em Ilha Grande, as horas de caminhadas e você dizendo que já estávamos chegando.
Tenho saudade da separação, daquela briga silenciosa que sufocamos até o copo cair e quebrar, o momento em que resolvemos não alimentar mais tanto sofrimento, em que resolvemos não mais justificar nossos corpos juntos.
Tenho saudade da volta, daquele beijo que não sabia por onde começava nem quando terminava, dos nossos corpos exaustos, dos lençóis no chão e a bagunça toda outra vez.
Tenho saudade da despedida, de quando apertou-me a mão, e eu para disfarçar as lágrimas que cedo pousavam na baía dos olhos, disse que tudo ficaria bem e não levei a sério aquela que seria sua última impressão de vida no meu corpo.
Tenho uma saudade que não sossega e é quase tanto como um início de casais inseguros, anseando a vivência, a concordância, a permanência, o eu te amo.
A nossa certeza já estava estabelecida quando deixastes a saudade de ti em mim.