segunda-feira, 1 de junho de 2009



“Eu gostaria de ser assim firme, homogênea, uniforme, mas sou derretida, malemolente, líquida, o que você toca é a parte de mim que mente.”
Rosemeri Sirnes

sábado, 16 de maio de 2009





A ESTREIA DO FIM
Arte de Monet


Eu entendo, agora eu entendo essa cisma, não tem nada a ver com algum tipo de “trabalho” que ele possa ter feito pra mim, até porque a religião dele nem permite esses rituais. Agora eu encontrei uma explicação para esse apego de menina que não quer largar o brinquedo favorito. É culpa minha, não dele; essa dependência é o que ele disse certa vez, uma espécie de carência, mas não é falta específica - como ele todo cheio de si pensava ser - é generalizada, é falta de alguém pra amar, é falta de alguém que queira amar, o indefinido disposto a receber um nome.
Eu costumava emendar um relacionamento no outro, ter-me em companhia era quase como a solidão, eu sempre precisei de alguém ao lado, como se quisesse uma afirmação além do espelho; e eu que sempre o critiquei pela vaidade, pude constatar que enxergara até então apenas o defeito alheio.
Ele arredio, ele desconfiado, nunca soube ao certo qual a melhor definição; a mim sempre se mostrou um mistério indecifrável, um desses assuntos que se prefere evitar, e não tem nada a ver com suicídio, ou de repente é parecido, porque ele negava o sentir, o tentar, o próximo passo, e isso é quase como antecipar a morte.
O Sol traz a luz quente que me lembra vida, a felicidade entrando pela janela do quarto, a Lua é o Sol deitado sobre um manto preto, e eu fico pensando, se um dia essa luz apaga? Seria como pôr uma venda nos olhos, como trancar-se na caverna de si e fechar todos as portas de entrada e saída, é como o covarde, é como o vejo.
Outro dia a música fez sentido pra mim, sabe como é? Quando os ouvidos antes distraídos voltam toda a atenção. A letra se encaixou entre o meu nome e o dele “o teu amor é uma mentira que a minha vaidade quer.”
Eu sei que vai, vai pra nunca mais voltar, já vejo os sinais, a intolerância, a vontade de estar perto e quando está, vontade de se afastar; a confusão do amor quando despeja as últimas gotas.
Ele não vê, eu sei que ele nem faz ideia, ele não sabe que pra bom entendedor um pingo é letra, ele sequer conhece a frase, por isso eu a usei na estreia do fim.
Rosemeri Sirnes

quarta-feira, 6 de maio de 2009




A POESIA DE EURICO


Ah...se a minha poesia seguisse Eurico tudo seriam flores, e eu não pensaria em tantos motivos para o que deu errado.

Se a verdade fosse minha, e não essa dúvida advinda de antecipações do passado que não me deixam ultrapassar a barreira da calma, tudo acabaria na cama: as discussões, o acerto de contas, as vontades.

Se a pedra fosse a mesma depois de seguidos golpes do mar, tudo seria em vão, eu ainda estaria pensando em providências e nem me encantaria a poesia de Eurico, minha cabeça estaria longe e meus olhos em outro lugar.

Meu amor bateu em retirada porque a vida não é tão doce como a poesia que Eurico me põe à boca, esse melado, essa implicância de fiapo entre os dentes, essa brincadeira de tutti-frutti presa no canto atrás do ciso.

Eurico estende o tapete quando passo nesse chão de terra batida e pedras pontiagudas e eu gosto desses mimos e das cócegas.

Enquanto do outro lado alguém me aponta uma faca por debaixo da camiseta, me ameaça com o cano da arma na cintura e diz que tudo não passou de mero engano; quando tudo já caiu por terra, quando meus joelhos escarnados se acostumaram à dor de estimação, um fulano bate a porta e diz que não volta.

Ah...se a minha poesia sorrisse como Eurico ao invés de verter lágrimas e soluços, eu viraria a mesa e estaria pronta para novos abraços. Eurico seria o meu ponto de partida, a volta de 180º, a constatação após previsões de sua vinda.

É um colorido essa poesia de Eurico porque não é só verde ou azul, é água, é turquesa, é abacate, é real.

Ah...se a poesia de Eurico coubesse aqui...quanto de mim não seria empenhado...

Dedico a Eurico por seu Eu-lírico.

sábado, 2 de maio de 2009




A cada cena um nó na garganta


Saí para caminhar pela manhã, não para exercício matutino, o que não seria má ideia, afinal o corpo é feito para movimento. Aproveitei algumas providências e encurtei as distâncias, essas que eu sempre alongo por causa da preguiça. Fui a pé um pouco pela economia, afinal daqui à esquina ou ao centro da cidade o custo da passagem é o mesmo, e nesse caso eu é que preciso ter senso de justiça.
Aproveitei a leveza do sol sobre a pele, que desta vez estava como coração apaixonado em companhia, sem fúria, pelo menos neste dia.
Fui à locadora e lá estava na estante o filme que ensaiei para assistir no cinema e que saiu de cartaz antes que eu pudesse me decidir. O filme “O aborto dos outros” se encontrava na seção de drama. Eu o procuraria entre os documentários, por isso o encontrei por acaso e nem pestanejei, carreguei-o comigo.
É um tanto óbvio dizer que a realidade supera a ficção. O filme constitui-se em relatos comoventes de mulheres que já enfrentaram de forma legal ou ilegal o aborto; trata de sua descriminalização sem levantar bandeira. Não discute razões, apenas expõe os vários motivos que levam a uma mãe optar por esse tipo de procedimento; sem avaliar, apenas constatando, propondo uma pausa, uma discussão atenta e joga a pergunta no ar “será que vale a pena continuar tratando o aborto como um crime?”. A resposta fica nas mãos do espectador.
Alguns críticos resumem uma obra usando uma única palavra, eu não conseguiria resumir todas as nuances de sentimento em uma palavra e nem sei se bastaria dizer que diante de cada cena forma-se um novo nó na garganta, mas é o que de fato acontece.

sábado, 28 de março de 2009



HUMANA E EXATA

Foto: Gustavo Joel Braga


É predestinação, é talento, é coisa qualquer que promove o drible, pernas tortas que possibilitam, mãos que desenham letras redondas em coleção de substantivos e adjetivos cujo resultado fim merece elogio.

Ela e seu texto enxuto, ela e suas palavras me fazem pesquisar no dicionário. Ela instiga minha sede por esse conhecimento suspenso, ela me faz querer alcançar bolhas intituladas. Em sua biblioteca estão enfileirados de Sócrates a Chico Buarque, e eu me interrogo com certo ar intelecutal para disfarçar minha completa ignorância, como ela foi capaz de ler tanto em tão pouco tempo de vida, ela responde a pergunta que fica presa na garganta, ela responde por vaidade, que semanalmente lê cerca de três livros, e solta a questão que me ficou presa só para engrandecer seu ego, eu culpo o tempo, a pressa, só para não evidenciar o desinteresse. Mal sabe ela que dos jornais só leio questões relacionadas à diversão e lazer, tanto que suspeito, qualquer dia desses a guerra vai ser estabelecida e só vai me alertar o estourar das bombas.

Eu a invejo, confesso, o manejo com as letras e essa publicação que corre feito sangue nas veias, essa inspiração mesmo diante da falta de assunto. Ela discorre sobre todas as coisas, tudo o que lhe passa aos olhos é motivo, seja através da janela do carro ou no detalhe adiante, do canto estreito do rodapé. Ela me ganha em qualquer discussão, no embate suas teorias filosóficas contra minhas certezas sem argumento.

Eu a amo, e em algum momento ela se confude comigo, talvez por herança, mas a verdade é que ela é humana e eu exata. Seu defeito é não ter raciocínio lógico, o meu é não ter coesão, nem coerência.

No fim é tudo uma questão de organização, mudam apenas as direções.


quarta-feira, 25 de março de 2009






Conhecida globalmente como Earth Hour, a Hora do Planeta é uma iniciativa mundial da Rede WWF de alerta às mudanças climáticas.

No sábado, dia 28 de março de 2009, às 20h30, pessoas, empresas, comunidades e governo são convidados a apagar suas luzes pelo período de uma hora para mostrar seu apoio ao combate ao aquecimento global.

Fonte: Comunidade A Hora do Planeta 2009 (Orkut)

quarta-feira, 4 de março de 2009

A ÚLTIMA IMPRESSÃO DO TEU CORPO


Oh meu companheiro, que saudade tenho de ti, daquelas conversas de largas pernas, das mãos dadas, das nossas intenções e de tudo que ficou subentendido. Tentei saber notícias suas por algum tempo, mandei algumas mensagens que retornaram a minha caixa postal, nem lembro bem, se por numeração incompleta ou mudança.

Lembro ainda de uma frase ardida de fim de papo em que dissestes, tenho certeza, com total desconcerto, que o melhor para nós dois era a separação.

Você nunca se acostumaria como eu, aos desenlaços, nunca a aliança esteve no dedo, nem a assinatura no papel, nossa condição nunca foi estabelecida por meio; a certeza sempre veio de nós, assim como a decisão cada um para o seu lado, que desceu amarga pela garganta, até que eu pudesse digerir.

Tenho saudade dos pés sobre a mesa de centro, as pernas no meio caminho e a mania de me provocar na frente da tv na hora do meu programa favorito.

Tenho saudade do fim de semana em Ilha Grande, as horas de caminhadas e você dizendo que já estávamos chegando.

Tenho saudade da separação, daquela briga silenciosa que sufocamos até o copo cair e quebrar, o momento em que resolvemos não alimentar mais tanto sofrimento, em que resolvemos não mais justificar nossos corpos juntos.

Tenho saudade da volta, daquele beijo que não sabia por onde começava nem quando terminava, dos nossos corpos exaustos, dos lençóis no chão e a bagunça toda outra vez.

Tenho saudade da despedida, de quando apertou-me a mão, e eu para disfarçar as lágrimas que cedo pousavam na baía dos olhos, disse que tudo ficaria bem e não levei a sério aquela que seria sua última impressão de vida no meu corpo.

Tenho uma saudade que não sossega e é quase tanto como um início de casais inseguros, anseando a vivência, a concordância, a permanência, o eu te amo.

A nossa certeza já estava estabelecida quando deixastes a saudade de ti em mim.



Rosemeri Sirnes