sábado, 10 de outubro de 2009



ESCANDALOSA DOR



“Só eu sei a medida da dor que sinto, só eu saberei o limite, so-mente. A hora exata de dizer basta. Só eu sei a medida de dor que suporto, e ainda que não acredites, eu sei dizer não.”




Chorei à vácuo, um choro silencioso, escandalosa dor.

Dores se confundem, cada qual com seu argumento a favor. Tudo o que eu queria agora era dormir, a minha eternidade deitada em lençóis de seda azul. Tudo o que eu queria agora era ser feliz pra sempre, mas é luxuoso demais sonhar.

Não sei, realmente não sei dizer se esta é maior que as outras, não quero colocá-la em pé de igualdade, nem inferiorizá-la como se a dor do mundo importasse no meu apartamento de dois quartos.

Se as minhas veias estivessem secas e eu me visse ali pálida, talvez eu temesse a morte e desejasse ter dias como esses daqui, talvez seja coisa de consumismo querer aquilo que não se tem.

Chorei a dor acumulada, das vozes que não se calam, das vidas tristes que encontram abrigo em mim, dos princípios de felicidade que não alinham, dos sorrisos de quem se contenta com pouco, da dor de me ver em cada rosto solitário da cidade.

A boca está seca, a respiração ofegante, falta ar neste vazio, falta.

Chorei como se chora de felicidade e solucei como se não houvesse escapatória. Eu escrevia e não entendia as vias que se abriam pra água escorrer. Por ter onde desaguar é que eu descanso, por encontrar como dizer é que deito e sonho mais longe ainda.


Rosemeri Sirnes

sexta-feira, 2 de outubro de 2009







TUA HISTÓRIA EM MIM


Quero saber onde nasce o sol primeiro. De lá pra cá? Quero ver se lá o sol é brilhante, se a terra é morna e me aconchega tanto mais do que aqui. E da minha pele, de onde vem a tonalidade da pele e esse coração que bate no compasso do candomblé? Minha ascendência não é germânica, espanhola ou italiana, se isso é o que importa, talvez eu até tenha uma pitada, mas o meu solo é africano, e eu não conheço nada da minha raiz, sequer a origem do meu sobrenome.

Alguém sabe da minha mãe, além das guerras, massacres e fome? Alguém sabe se lá o solo é árido e os animais vivem a solta como em um zoológico? Alguém sabe se as etnias continuam em guerra? E as estatísticas de Aids e inanição? Alguém sabe dos meus filhos, a origem de seus sorrisos? Sabe-se lá, quem silencia seus choros?


“Conflitos entre tribos rivais no Quênia estão cada vez mais frequentes tendo como causa principal a seca. Pessoas disputam água e terras.

Aproximadamente quatro milhões de quenianos vítimas da seca são dependentes do Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas. Apesar disso, o PAM(Programa Alimentar Mundial) prepara-se para reduzir a ajuda devido a falta de verbas.”

“Na África mais precisamente na região oeste onde fica a Guiné-Bissau ainda é comum a prática de circuncisão feminina. Desde 2006 foi entregue um projeto de lei ao parlamento proibindo a prática da circuncisão feminina. Mas até hoje a prática é legal no país.

Cerca de quatro mil meninas são circuncisadas por ano, muitas delas não resistem e acabam morrendo após a mutilação.”


Trarei notícias boas de ti, trarei notícias da tua reestruturação, do encontro dos irmãos de diferentes tribos. Serei emissária das tuas boas venturas. Tenho fé nos teus dias.

África, teu continente corre em minhas veias. Nunca vou negar tua posse sobre meu corpo. Reconheço-me em cada traço do teu povo, enxergo-me na pele mais escura que expões. Sou filha da tua terra. O sangue da tua memória me reconstrói, e é por todo esse sangue que tento fazer tua luta valer a pena.



Rosemeri Sirnes


sexta-feira, 25 de setembro de 2009









RESPIRE A MÚSICA, SÓ ISSO

Será que alguém vai entender quando eu escrever sobre não esquecer de respirar a música? Quando eu fechar os olhos e chorar, será que vão pensar que é de tristeza? Ou então, se eu gritar e movimentar os braços como única libertação, será que não levarão em conta a minha sanidade? Se eu disser que amo mais uma vez, ele vai acreditar que é uma outra forma? Quem vai levar em consideração ou perdoar as minhas crises existenciais? Quem vai me pegar de jeito e dizer toda a verdade? Será que ainda demora? Será que vem devagar? E o mar, há de respeitar quando eu fincar os pés na areia e não me deixar levar? E o sol, há de livrar-me de teus raios e ser apenas benefício à minha pele? E tu, como vais? Quando vens? Malas prontas, todos os pertences, inteiro?

Será que vão ter como certa a minha permanência? Será que permitem que eu me estabeleça e escreva? Será que ele assina e lavra e acredita e leva a sério e envelhece e agradece estar ao meu lado? Será que vadio, mentiroso? Será que sem traumas, nem freios? Será que entende meu silêncio e não interrompe?

Não minta, não minta! Acima de todas as coisas importantes - destaco para que leias, não ignore - A tua verdade é o teu valor. Não me faça acreditar que vales nada.

Será que a minha vida encontra a sua, sem endereço e sem vontade? Será que o beija-flor anuncia novo amor? Será que a esperança traz bom prenúncio? Será que o pássaro passa da cozinha? Será que ele se contenta com as migalhas? E o dialeto que eu ouço, será que faz sentido, será que encontra aki razón?

Respire a música, para que ela te encontre, qualquer música para que a gente se encontre, uma única música para que as mãos se toquem e sigamos em rodopio pelo salão e eu possa te beijar com a palavra e eu possa entender a tua mão sobre minha coxa. Dance comigo para que eu diga eu te amo, para que meu corpo declame sua beleza. Dance comigo e saberás me guiar como exímio dançarino, ainda que aprendiz, ainda que nunca antes.

Nenhuma pergunta, só o teu corpo e o meu.

Respire o meu prazer, me engole inteira de vontade.


Rosemeri Sirnes

sexta-feira, 18 de setembro de 2009




Arte sem limites

Você se surpreende com o fato de que um simples traço de pincel dá expressão a um rosto? Toca-lhe fundo a alma a junção adequada e precisa das notas musicais? Arrebata, espanta e fascina a forma como a reunião de palavras pode ganhar vida diante de seus olhos? Dá uma olhada nas fotos abaixo, elas mostram a “autópsia de livros” realizada pelo artista Brian Dettmer, que prova como a arte se renova ao longo dos tempos. O seu trabalho consiste em criar verdadeiras esculturas com recortes de livros velhos, dicionários e enciclopédias que antes estariam em uma prateleira empoeirada sem uso.
Um amigo meu chamaria isso de pecado, eu chamo de obra de arte.



























quarta-feira, 9 de setembro de 2009


O QUE EU NÃO SEI

Fui parar em 2006 pra te encontrar, pra saber um pouco mais. Tenho a impressão de que perdi alguma coisa toda vez que você diz e eu não entendo. Tua lista de recomendações e o sopro de verdade que a tua condição e idade trouxeram, vim buscar algum caminho pro meu discurso. Nada aqui se parece comigo e talvez nem tenha mesmo que parecer com nada do que eu já tenha visto, e por isso cause em mim essa sensação de estranheza, como se eu estivesse subindo pelo elevador de serviço. Você fala outras línguas em frases cheias de apóstrofos, Le, dit e eu penso em algo para colocar-te junto a mim em pé de igualdade. Eu nunca sei que título dar às coisas que escrevo, você escreve qualquer coisa com aspas e dois pontos e é tudo fabuloso.
A minha pós em Literatura vai de vento em popa, chego em cima da hora todos os dias por conta do trabalho que quase me prende por causa de suas urgências de última hora, e embora tudo reme contra, eu sempre chego a tempo de costurar o meu retalho. Você sabe que lugar em que se reunem muitos egos tem sempre um pessoalzinho que volta e meia distrai o assunto e fala em uns tais que provam, que esclarecem, que defendem e eu penso que merda de faculdade é essa que eu fiz. Uma vez eu abri a boca para fechar pra sempre, palavras em formas de pedra seguiram na minha direção, quase pedi desculpas por interromper aquela guerra de vaidades. Agora eu faço cara de paisagem e levo em frente o meu projeto. Qualquer dia desses ergo um prédio, você vai ver.
Tenho que ir mais longe, talvez eu pare no século XVIII, talvez eu avance um pouco mais.
Rosemeri Sirnes