segunda-feira, 12 de julho de 2010


MINHA TURMA, MINHA GENTE

Gente é muito bom
Gente deve ser o bom
Tem de se cuidar
De se respeitar o bom
Está certo dizer que estrelas
Estão no olhar
De alguém que o amor te elegeu
Pra amar
(Gente - Caetano Veloso)


Não vou falar das flores murchas. Recebi um buquê de vivas cores, coloquei-as no jarro com água gelada para durar minha semana, florindo a ante-sala recebendo bem aqueles que vêm pela porta principal.

No meio de toda fagulha, feriu-me o tanto que eu pude suportar: falar a mesma altura, suprimir o choro na garganta e descontar mais tarde ao telefone sossegando em mim tanta fúria ácida. Eu consegui conter o tremor das mãos e aquela sinfonia de panelas dentro de mim; forte, embora todo o corpo respondesse covarde. Quantas coisas nos deparamos...de repente e enquanto se está vivo é possível acontecer.

Não sou nenhum Jesus Cristo. Sou carne e osso, humana, ariana. Enlouquecida sou muito mais.

Mas tá freando, sob controle, atravessando a rua pra ser feliz.

Já sinto saudades das pessoas, algumas que nunca mais verei, outras que eu vou levar pra mim em mim pra dias melhores.

Olha de enxergar, cruza os dedos nos meus, feito linha na agulha e eu acredito que é verdade, pois tudo o que é verdade olha nos olhos e transparece, reflete na íris.

Como esses anos longos vão nos levando, eu e Su somos irmãs e nem precisamos de documento e testemunhas. Ela garante que o sucesso são nossos gostos avessos pelos homens. Eu confio que temos uma pausa certeira, de caminhar e parar, de falar e calar.

Meus dentes não estão mais trincados, meus olhos não respondem mais aos conselhos de que é preciso chorar pra sarar.

Escutei Don McLean cantando American Pie, mas foi um Peixe Vivo que me trouxe coloridos olhos posando espontâneo sorriso.

Como pode o peixo vivo
Viver fora da água fria
Como pode o peixe vivo
Viver fora da água fria


Como poderei viver
Como poderei viver
Sem a tua, sem a tua
Sem a tua companhia
Sem a tua, sem a tua
Sem a tua companhia


Rosemeri Sirnes


sábado, 26 de junho de 2010



CARTA PARA QUEM ESTÁ LONGE

Foto: Vanessa Tavares


Escrevi quatro linhas, recebi dezesseis de volta. Gosto quando multiplicam minhas palavras, quando deixam de culpar o tempo, quando silenciam palavras a dedo no papel.

Então quer dizer que o sol acende a lareira e fica o dia quase todo te aquecendo? Deve ser pra te afastar o inverno - que por aqui se institui quando abaixo de 18 graus - te afastar o frio de dormir sozinho; o frio da ausência das crianças na frente da TV, falando alto, pedindo mais um tempo antes de sentarem à mesa; o frio de não ter o sabor da comida da esposa atravessando a rua indo ao seu encontro, de longe sabe a boca o que lhe espera. O frio de se encontrar em outro endereço, o frio de não encontrar mais os vizinhos (e olha que você nunca imaginou sentir esse gelo nos pés), o frio de ter que olhar o mapa toda vez que sai da casa que não é a sua, que das suas coisas só abriga a mala ao lado da cama.

Aqui anoitece às seis, esfria, o céu fecha os olhos, parece que dorme, então dizemos amém. Tenho meia nos pés, corpo coberto, protejo os lábios dos cortes do tempo, busco energia alternativa quando falta luz natural em cartas como a sua.

Sou como papel branco, anseio pela escrita em minha pele, pelas expressões, o tempo marcando passagem em minhas terras. As rugas no meu rosto são estradas que percorri sem sair de mim. Recebo tuas palavras querendo lançar as minhas, querendo ser peixe no mar, respirar do fundo pela vida que você me dá.

Duplico minhas linhas, alimento a sede que há muito em mim; você sem saber, sem querer, feito música nas horas de intervalo me deixa respirar.

Cada vez mais o passar dos dias te aproxima de dias ensolarados, o verão chegará com as malas, as gavetas cheias, os amores que ficaram do lado de cá.

Anjos pra você. Deus e sua sombra, duas bênçãos. Cada amanhecer, a luz nascendo atrás da nuvem, crescendo em você. Crianças sorrindo, correndo, crianças penteando o seu cabelo, te colocando pra dormir, brincando de pique, puxando a corda pro teu lado. O som da harpa tornando o silêncio um sossego, nunca solidão. A chuva caindo no solo e subindo num cheiro de vida, lembrando uma época em que suspenso no balanço não tocavas o chão; barulho na telha, derrama lágrima na janela, encontro seu rosto intocável. Borboletas, nuvens, coisas na altura da vista, coisas fugidias que a gente esquece de olhar. Que estejam na sua janela brotando num jarro de flor.


Rosemeri Sirnes

segunda-feira, 21 de junho de 2010

MAYRA ANDRADE



Meu espaço hoje é reservado à Mayra Andrade, cantora de Cabo Verde e de muitos outros lugares que passam por ela, por onde ela passa e por onde passeio quando escuto sua voz, sua música.

Depois de algum tempo vivendo uma vida sem sangue, essa minha escrita corre as veias novamente, num mar de águas calmas, vem trazida por Navega . Eu poderia ajoelhar e reverenciá-la por sua arte e todo o bem que faz a minha alma, sem temer a blasfêmia.

Fecho os olhos pra enxergar melhor o que há dentro mim. Ela me encontra os lugares das emoções que nunca senti, eu passeio em mim enquanto ela transita o mundo inteiro. Os álbuns Navega de 2006 e Stória, stória de 2009 revelam a beleza que é capaz um corpo, habitar uma alma devagar, de maneira despretensiosa e grandiosa.

Metade do que sinto eu não sei dizer, a outra metade eu digo assim meio sem saber. Nunca fui boa em explicar por que as luzes se acendem ou por que eu fecho os olhos quando canto.








sábado, 12 de junho de 2010

Santo Sangue


Corre o tempo e o último fio de sangue
O primeiro que recebo em minhas veias
Corre ligeiro e irriga a parte de mim que coagula.

Não só de água filtrada sobrevive um corpo
O sangue é a minha sentença de morte
É a minha extensão de vida em bolsas.

Pessoas percorrem minhas artérias
Vidas presentes, sem reencarnação.
Salvam-me e nem por isso as santificam
Quantos milagres mais serão necessários?

Nasci como um grande acidente
Mamãe recebeu-me como benção
Desde então tenho a vida a correr de mim
Aproximo-me com todo cuidado
Para não me ferir.

Um corte mostra-me a face da morte
O sangue é minha condição, minha sobrevida.
Sigo feito criança a atravessar ruas
Olhos atentos para ambos os lados
A vida aqui parece que só se multiplica em linhas.

Rosemeri Sirnes

domingo, 23 de maio de 2010


Demorou, mas eu me rendi à onda Twitter. Antes eu achava 140 caracteres pouco, na verdade continuo achando, mas tem sido um bom exercício de concisão. Por vezes me orgulho das frases curtas e inspiradas que componho, pena continuar tendo a impressão de estar falando numa caverna vazia, tamanho o eco.

No momento tenho dois followers, ambos afastados do exercício diário das postagens, ou seja, tenho falado para mim mesma há uma semana; ainda assim não desanimo, tenho a esperança de que alguém vai pintar por lá e molhar minhas mãos com sábias palavras. Será que é a interação que distingue os loucos dos normais? Quem são os normais? Voltando. Sigo seis pessoas e costumo caprichar no Reply, quem sabe eles não notem o meu comprometimento e pintem lá na minha barraca um dia desses.

Mas de fato, embora eu goste de audiência (e quem não gosta), tem sido um exercício leve, diário e viciante. Funciona quase como terapia, só não tem um especialista do outro lado apoiando ou criticando as minhas ideias, pelo menos por enquanto. Não despejo angústias, nessas horas eu quero voar longe. Você já reparou que a estampa do Twitter simula um céu cheio de nuvens? Nós somos os pássaros. Liberdade pra dizer “bolo de cenoura com cobertura de chocolate” ou “como dizer a minha avó que não suporto esses e-mails com anexo de PPT sem magoá-la?”, coisas bobas, mas que liberam o HD e preenchem linhas; por vezes inspiram a coisas maiores, então chega a hora de recorrer ao blog e deixar no post o link para que todos leiam o texto na íntegra.

Compartilha-se uma alegria, como a que vi outro dia (utilizo aqui um fictício):

@mauriciosouza Felicidade (link da foto dos filhos).

Diminuímos as palavras e damos um zoom no sentimento. Quando você tem 140 caracteres fica ali costurando cada palavrinha para que o acabamento seja perfeito, às vezes sem querer (e acaba acontecendo na maioria das vezes) fica bonito mesmo sem maquiagem.

@rosesirnes The Smiths me lembra a galera cantando no meu aniversário de 15 anos "Bigmonte la la la". Todo mundo se achando fluente. Bons tempos...

@rosesirnes Eu dei um tempo, parei de pensar e devorei um livro. É verdade, certas coisas nos consomem mais do que devem.

@rosesirnes Malas prontas. A mochila com peso extra de felicidade antecipa tudo o que eu preciso, além dos cremes e todas as outras futilidades.

@rosesirnes Céu azul, ventinho de beira praia e sol de bem com a pele. Dia de passeio ao ar livre.

@rosesirnes Esqueça! Se você não tem vocabulário suficiente, você vai ler o The Guardian e não vai entender pelo contexto.

@rosesirnes 140 caracteres é covardia.

Rosemeri Sirnes



quinta-feira, 13 de maio de 2010



COMO SERIA?

Foto: José D’Almeida e Maria Flores


Às vezes fico imaginando se daríamos certo. Imagino você concluindo mais uma de suas crônicas e eu lhe servindo uma xícara de café no meio da tarde. Também penso que deveríamos ter dois computadores em casa e fones de ouvido.

Às vezes fico pensando se nossos gênios suportariam o passar dos dias, se bastaria estarmos juntos para que essa coisa que há entre a gente que nunca sei dizer o que é, um pouco de céu e inferno, desaparecesse.

Às vezes fico querendo pintar uma tela. Nós dois na cozinha, você temperando a carne e eu cortando os legumes e você dizendo que é melhor fazer assim, assado.

Às vezes me vejo lhe aconselhando para que vista a calça xadrez com uma camiseta neutra, de preferência branca, pois fica muito melhor e mais bonito.(mas ao mesmo tempo, não te imagino com uma calça xadrez)

Às vezes fico querendo passar mais tempo contigo de graça, mais tempo pra assistirmos filmes juntos, comédia de preferência, do tipo pantera cor de rosa com Peter Sellers, só pra gente não precisar forçar demais, só pra ser mais simples.

Às vezes me vejo com a cabeça deitada sobre o seu colo num sofá de três lugares, você com suas mãos macias e o que menos interessa é o que está passando na TV.

Às vezes eu sonho acordada com você do meu lado.

Às vezes fico querendo que você me ame, só pra ver se você é capaz.

Às vezes sei o gosto do teu beijo quando está indo e queria que você voltasse só pra ver se é possível.


Rosemeri Sirnes