terça-feira, 4 de agosto de 2009


COISA DE PELE
Arte: Peter Blake

“Sinto a falta dele. Hoje ainda mais. E sei que ele sente a minha, ainda que seja a mesma falta que o animal sente em ter o alimento entre as presas.”

Sei o que é está na pele, aquela que arranca com os dentes e abre ferida sangrando sem cessar até que contida.
Sei o que é está na pele do joelho que rala e ultrapassa as camadas e arde mesmo diante da cura.
Sei o que é está na pele quando a bolha estoura e a queimadura mostra a sua continuidade.
Sei o que é está na pele quando o corte me faz ver suas metades.
Sei o que é está na pele enquanto cura e ainda sem casca leva uma outra topada.
Sei o que é está na pele quando mesmo sem dor, ela descasca e murcha e percebo que antes não era assim.
Sei o que é está na sua pele porque das dores sei de cor.
Mas também sei o que é está na pele quando regenera.
Sei o que é está na pele quando dizem que ela está boa e todos especulam que há uma razão especial para isso.
Sei o que está na pele quando o pêlo arrepia e eu não encontro outra forma de dizer.
Sei do prazer antes da dor, quando todas as feridas e pequenas marcas são reduzidas a nada.
Rosemeri Sirnes

quinta-feira, 16 de julho de 2009



Yin Yang


Eu: A quem devo a mudança? A quem devo cobrar o passo definitivo? Partir é uma decisão sem pernas. Não me peças para dizer se é certo ou errado pular de um precipício, não perguntes a mim se queres alguma coerência. Eu não faço sentido, minhas frases não se completam e eu não sei onde foi parar a minha sensatez. A quem devo dizer o que basta? Se canso de repetir a mim e não funciona. Quero a vida imperfeita, cheia de atravessados. Nada pode ser certo e morno e garantido. Preciso de aversão e rebeldia.

Eu mesma: Você tem as respostas para as perguntas não feitas, para as questões abafadas no peito para evitar discussões calorosas, você tenta convencer-se de que não te furtas nesse melindre de amar quem você desconfia o mesmo sentimento.
Como te enganas! Como escureces a vista embaixo do lençol em que deitas em companhia. Aflige-me a resposta disposta, engasgada, presa, dando um nó grosseiro na garganta. Ah! Quem teria a resposta exata, certeira, se a vida não é feita de fórmulas matemáticas? Quem dirá quando te enganas e quando adormeces diante da certeza cintilante de um amor distraído?
Não te direis nenhum conselho, é bem capaz que me julgues. Sei bem como corações apaixonados reagem diante da contrariedade.


Rosemeri Sirnes

quarta-feira, 8 de julho de 2009


FAZ FALTA DE FATO O TATO


Sou egoísta. As pessoas dizem adeus e eu fico triste por saber que perderemos o tato. Sabe...tocar, lamber, degustação me atrai, preciso ter as coisas de fato. Não falo de posse, falo de contato, pêlos, poros, suores, sorrisos, abraços, amores (amor palavra singular - plural na diversidade em que se dá).
Hoje eu disse adeus, tchau talvez; a pessoa vai pra longe e a gente sabe que mesmo com o telefone, quando a pessoa não volta, ela realmente vai em continuidade.
Agora que caiu a ficha, sinto um aperto em algum lugar aqui dentro que não consigo distinguir e a lágrima vem... eu me esforço, mas ela teima em cair, saudade derrama.
Meu amigo se foi pra perto, longe de mim, ausente a sua voz interrompe meus silêncios, ausente sua presença preenche os meus vazios.
Tantas brigas bobas do passado, coisas à toa, de birra, de charme. Teria posto fim, se soubesse que esse tempo faltaria.
Lembro-me bem da partida, meu corpo, se fosse possível, ficaria tatuado ali. Preferi não levá-lo ao aeroporto, não iria compactuar com tudo aquilo –reforço: sou egoísta - eu sabia que aquela era a oportunidade da vida dele, mas sorrir despendia muita energia.
Fizemos, dois dias antes, uma despedida de nós, particular; senti que ali éramos laço e não mais um nó. Deitamos juntos com a cabeça sobre o mesmo travesseiro e aproveitamos pela última vez a nossa presença, sabíamos que juntos éramos mais. Neste dia sem lágrimas, varridas muito antes dele chegar; plantei alegria no olhar, numa conformação falsa, de frases ensaiadas, palavras em comunhão; tempo gasto em vão. Diante dele, todas cessaram numa saudação a todo o vazio que me invadia e eu fiquei calada.
Compartilhamos do mesmo ar, olhamo-nos fixamente como se quiséssemos rebobinar todo o nosso filme. Vimos todos os nossos defeitos, rimos sem parar, tudo o que havia passado despercebido virava piada; adormecemos de mãos dadas e quando eu acordei a mão solta me remetia a um sonho ruim, de fratura exposta, ferida aberta que doía.
Cinco anos passaram desde então, como flecha em direção ao alvo. Nada mudou, o espaço que ele preenchia continua vago como a garagem de um prédio comercial em dia de feriado; a gente mal se fala, vez em quando apressados ao telefone a gente se noticia, mas não é mais como antes, corpos isolados que as palavras por mais carinhosas não conseguem juntar. Faz falta de fato o tato.


Rosemeri Sirnes

sexta-feira, 26 de junho de 2009



Barcellos,


Eu te amo. Eu já havia dito isso antes? Te amo sem a fúria dos amantes, te amo devagar como a única estrada sem fim que eu não temo. Eu te amo simples e cuidadoso, eu te amo sem obscenidade, sem corpo atirado, mas ainda assim, eu te amo recheio de beijos e muitos abraços, e não é a proximidade de uma distância que se impõe que vai afastar o sentimento instituído. Eu te amo escancarado, eu te amo declarado, eu te amo sem fazer o jogo de esconde-esconde de quem tem medo de dizer primeiro. Eu havia lhe dito antes, mas antes está tão longe que vale dar um zoom.
Eu amo esse seu jeito de ter a tua convenção, de caminhar com ouvidos tapados, de transmitir tua parte boa mesmo quando essa é a única parte que tens. Teu sorriso vale uma verdade, é a verdade que eu preciso ter.
Eu te amo arrumadinho como os cristais na mobília, eu te amo organizado demais por isso nunca fora de hora, eu te amo distante e eu te amo na lembrança que surge repentinamente. Eu te amo amigo, eu te amo longo e comprido e eu te amo sempre mais.
Você vai, mas fica o amor tatuado e a estrada sem fim.

Nos vemos nas férias,
Rose

sexta-feira, 12 de junho de 2009

MESMO QUE VOCÊ NÃO VENHA DIA 12...

Eu queria que você viesse a tempo, eu queria que você viesse comigo disposta, apostando todas as fichas na história que há de ser, no tapete retalho que seja, na colcha de cetim que sonhara, na almofada remendada que um ajuste aqui outro lá faria parecer nova. Esse meu querer de qualquer jeito, em hipótese alguma deverá ser confundido com tanto faz, com coisa miúda advinda de qualquer um da esquina. Eu queria você, e isso deveria ser o suficiente para calar tantas desconfianças.
Eu queria nada de repetições, nem truques, coelhos saindo pela cartola, carros de som e rosas atiradas de um helicóptero. Eu queria mesmo no chão, de janelas abertas, eu queria o mordiscar que só você sabe dá e nenhuma dívida no cartão, nem cheque a perder de vista. Eu queria a tua coragem nas mãos, prestes a cair ao dizer eu te amo, a tua insegurança e a tua ansiedade pela resposta exata; não seriam necessários faixas e declarações públicas no outdoor. Eu queria nada além do que podes me dar.
Essa história de dizer que eu escolho demais, de duvidar minha cama vazia e o corpo sem agasalho e coberta, num colchão onde nem se dorme de conchinha; é coisa dessa gente que antecipa e sequer arrisca me puxar pra dançar, que sabe antes de mim das escolhas todas que nem estiveram a meu alcance.
Eu queria que você desse um jeito nessa gente toda que faz coro. Eu queria que você viesse antes, que você viesse no tempo certo que é seu, se não outro passa e me leva os olhos em direção.
Eu queria que você chegasse de surpresa e me pegasse assim sem subterfúgios, sem complicações e precauções.
Eu queria ontem, eu quereria anteontem, e amanhã, depois de hoje, é provável que eu ainda queira, se outro alguém não me quiser mais do que eu te quero agora, e eu me deixe levar.

Rosemeri Sirnes

segunda-feira, 8 de junho de 2009



A sombra da minha terra

A sombra da minha terra. De gramas escassas, de uma curvatura cheia, arredondada e um cabelo esvoaçante, metade preso, outra ao vento; uma imagem como defeito, daqueles que nem a gente enxerga. Eu nunca fui assim e a foto me fez ver a minha sombra, me fez enxergar o que sempre vem atrás, o quem nem eu mesma sei de mim, e foi então que eu descobri que eu nunca me conhecerei por completo, sempre haverá uma parte de mim de enigma que nem mesmo da sombra eu terei a foto.

Rosemeri Sirnes

segunda-feira, 1 de junho de 2009



“Eu gostaria de ser assim firme, homogênea, uniforme, mas sou derretida, malemolente, líquida, o que você toca é a parte de mim que mente.”
Rosemeri Sirnes