
Resolvi enumerar minhas benfeitorias para ver se os deuses reconhecem o meu esforço e não me sacrificam pelo descuido na cor das vestes.
- Não matei, nem enganei, o que já é um bom começo; intenções não podem ser consideradas, o fato é que eu me mantive calma e inclusive, administrei todas as minhas brigas internas, essas sim, são bem piores do que todos os tapas e revides que deixei de dar.
- Amei compulsivamente, a árvore da esquina, a água que sai da bica, as plantas do quintal, a bagunça do armário, amei até quem não merecia, amei concreto e abstrato.
- Não me economizei, nem um tostão, tenho bolsos furados para as minhas razões, para as minhas resoluções. E como diz o rei “se chorei ou se sorri o importante é que emoções eu vivi”.
- Bebi moderadamente, nenhum porre registrado, nenhuma grande loucura, além da de ir contra todas as certezas. Perdoem essa pobre menina míope. Se bem que não provoquei nenhum acidente ou atropelamento, isso deve ser considerado.
- Perdoei, perdoei... só por isso já valeu o ano inteirinho. Eu chorei uma tarde inteira. Diante da minha mãe mostrei minha face mais enfraquecida, que em 25 anos ela nunca havia conhecido. Eu perdoei quem me fez chorar naquele dia, o choro mais doído de todos.
Decerto estou aqui cometendo erros da primeira linha à última. Minhas loucuras nem sempre foram benéficas, meus impulsos nem sempre foram contidos, eu não fiz quem merecia feliz; mas vivi desde a luz do nascimento com dedicação, querendo estar viva, entre erros e acertos e as melhores intenções.
Se não funcionar, pelo menos chego em 2009 com a bagagem mais leve.